Hercules Barsotti

Hercules Barsotti

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A0487

Hércules Rubens Barsotti (São Paulo SP 1914 - idem 2010). Pintor, desenhista, programador visual, gravador. Inicia formação artística em 1926, sob orientação do pintorEnrico Vio (1874-1960), com quem estuda desenho e composição. Em 1937, forma-se em química industrial pelo Instituto Mackenzie. Começa a pintar em 1940 e, na década seguinte, realiza as primeiras pinturas concretas, além de trabalhar como desenhista têxtil e projetar figurino para o teatro. Em 1954, com Willys de Castro (1926-1988), funda o Estúdio de Projetos Gráficos, elabora ilustrações para várias revistas e desenvolve estampas de tecidos produzidos em sua tecelagem. Viaja a estudo para a Europa em 1958, onde conhece Max Bill (1908-1994), então um dos principais teóricos da arte concreta. Na década de 1960, convidado por Ferreira Gullar (1930), integra-se ao Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e participa das exposições de arte do grupo realizadas no Ministério da Educação e Cultura (MEC), no Rio de Janeiro, e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). Em 1960, expõe na mostra Konkrete Kunst [Arte Concreta], organizada por Max Bill, em Zurique. Hercules Barsotti explora a cor, as possibilidades dinâmicas da forma e utiliza formatos de quadros pouco usuais, como losangos, hexágonos, pentágonos e circunferências. Em sua obra a disposição dos campos de cor cria a ilusão de tridimensionalidade. Entre 1963 e 1965, colabora na fundação e participa do Grupo Novas Tendências, em São Paulo. Em 2004, o MAM/SP organiza uma retrospectiva do artista.

Comentário Crítico

Hércules Barsotti estuda desenho e composição no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, com orientação do pintor figurativo italiano Enrico Vio (1874-1960), de 1926 a 1933. Depois faz o curso de química industrial, que conclui em 1937, e atua na área até 1939. A partir dos anos 1940 resolve dedicar-se à pintura. Frequenta, por curto espaço de tempo, o ateliê do artista Dario Mecatti (1909-1976) e faz naturezas-mortas e telas de influência surrealista. Em meados dos anos 1950, se desinteressa pela cópia da natureza1 e passa a realizar desenhos abstrato-geométricos com nanquim. Nesses trabalhos, feitos a partir de 1953, divide a superfície em formas geométricas regulares, delineadas por linhas negras, de larguras e direções diferentes. A posição do traço, a distância e a justaposição das formas criam a ilusão de deslocamento dos planos, sugerindo uma superfície tensa e quebradiça. Em 1953, ele projeta figurinos, com Luís de Lima (1929-2002) e Badia Vilato, para o espetáculo de mímica O Escriturário, baseada em Bartleby, de Hermann Melville. A peça, encenada no Teatro Cultura Artística, é dirigida por Luís de Lima com o grupo de atores da Escola de Arte Dramática (EAD), em São Paulo.2
Em 1954, Barsotti abre escritório de projetos gráficos com Willys de Castro (1926-1988). A ligação com Willys e o contato com uma lógica industrial de trabalho aproximam-no ainda mais das poéticas concretas. Então começa a atuar como artista gráfico e cria estampas para tecidos. A objetividade peculiar do concretismo, no entanto, só aparece em sua pintura a partir de 1957. Barsotti simplifica sua pintura e passa a utilizar formas geométricas impessoais, em preto e branco. Esses elementos evitam as marcas do pincel e, se articulando em série, sugerem volumes virtuais. No entanto, Barsotti não adere a nenhum grupo de vanguarda nem assina nenhum manifesto concretista. Expõe trabalhos na 4ª Bienal Internacional de São Paulo. Em 1958, Barsotti ganha a pequena medalha de prata do Salão Paulista de Arte Moderna e parte para a Europa com Willys de Castro. Lá estuda e visita Itália, Suíça, Espanha e Portugal. Durante a viagem o pintor conhece Max Bill (1908-1994), que será decisivo em sua pintura.
Ao voltar para o Brasil, em 1959, Barsotti realiza sua primeira exposição individual, naGaleria de Artes das Folhas. Nesse período, seu trabalho fica ainda mais austero. O artista pinta sobre superfícies homogêneas - pretas ou brancas - faixas que se afinam no centro ou nas margens da tela, dispõe elementos sugerindo diagonais que produzem a impressão de curvatura na superfície da tela. Sua pintura passa a trabalhar o quadro como um objeto que será desenvolvido como algo dúbio, um plano que sugere um volume. Esse movimento aparece pela primeira vez em telas como Branco/Preto (1960) e Preto/Branco/Preto (1960).
Esta abordagem o aproxima do Grupo Neoconcreto. Com o Grupo, expõe em 1960 noMinistério da Educação e Cultura (MEC) no Rio de Janeiro e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) em 1961. Ainda em 1960, ele mostra seus trabalhos na exposição Konkrete Kunst [Arte Concreta], organizada por Max Bill, em Zurique. Junto com a aproximação ao neoconcretismo, Barsotti retorna à tendência de progressiva austeridade em sua pintura. Em meados dos anos 1960, incorpora a areia como fonte de brilho e de densidade física de suas pinturas. A partir de 1963, abandona a fé ortodoxa no preto e branco concreto, e consegue importar seus primeiros tubos coloridos de tinta acrílica. O formato da tela determina a estrutura interna dos trabalhos. O artista produz quadros em formatos hexagonais, redondos e pentagonais. Em 1963, desenha, com Willys de Castro, o logotipo da Galeria Novas Tendências, fundada e gerida pelo grupo concreto de São Paulo.
Desde 1964, Barsotti desenvolve pinturas em que sequências regulares de cores se sucedem sugerindo certo volume nas telas de formatos pouco usuais. Realiza individual, em 1965, na Galeria Novas Tendências, em seu último ano de funcionamento. Nas pinturas realizadas durante os anos 1970, como Núcleo Aberto (1971), dá continuidade às pesquisas realizadas na década anterior. Em alguns trabalhos, sugere um relevo virtual que aumenta das bordas ao centro da tela. O uso das cores e das sugestões de volume aproxima estas obras da optical art. A partir da década de 1990, volta a simplificar suas pinturas, reduz o número de cores e as aproxima. Em 1998, o Escritório de Arte Sylvio Nery da Fonseca, em São Paulo, faz uma retrospectiva dos desenhos de Barsotti feitos durante a década de 1950. Em pinturas mostradas na mesma galeria, em 2002, o artista retoma o uso da areia.
Notas
1 Declaração do artista em entrevista a Camila Molina. In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 mar. 2002. Caderno 2
2 VARGAS, Maria Tereza- FERRARA, José Armando- SANCHES, José Maurício. Escola de Arte Dramática 1948/68. Alfredo Mesquita. São Paulo: Fundação Padre Anchieta, 1985.

Nascimento/Morte
1914 - São Paulo SP
2010 - São Paulo SP - 22 de dezembro
Cronologia
Pintor, desenhista, programador visual, gravador

s.d. - São Paulo SP - Integra a Associação Brasileira de Desenhistas Industriais
1926/1933 - São Paulo SP - Estuda desenho e composição sob orientação de Enrico Vio (1874 - 1960)
1937 - São Paulo SP - Forma-se em química industrial pelo Instituto Mackenzie
1937/1939 - São Paulo SP - Trabalha como químico
1953 - São Paulo SP - Atua como desenhista de figurinos para teatro, como os executados para a peça Mimodrama, encenada no Teatro Cultura Artística
1954 - São Paulo SP - Funda, com Willys de Castro (1926 - 1988), o Estúdio de Projetos Gráficos
1958 - Europa - Viaja a estudo
1960/1961 - Rio de Janeiro RJ - Integra o Grupo Neoconcreto
1963/1965 - São Paulo SP - Participa da fundação da Associação de Artes Visuais Novas Tendências
1967 - São Paulo SP - Classifica-se no Concurso Nacional de Desenho de Padronagens Têxteis
ca.1987 - São Paulo SP - Atua como programador visual

Críticas

'Seu interesse é o da natureza da pintura e as possibilidades gestálticas de cor, superfície, espacialidade. Participante ocasional do Grupo Concreto de São Paulo, mais próximo ideologicamente aos artistas do Rio de Janeiro, trabalha, desde o início dos anos 50, a cor, particularmente o preto e o branco, e a dinâmica das possibilidades da forma. Procurando o equilíbrio entre razão e emoção, seus quadros possuem uma qualidade objetual resultante da ilusão tridimensional provocada pela disposição desequilibrada dos campos de cor em relação à moldura. As formas flutuam, giram, escapam para fora da tela. Frederico Morais dele escreve que 'tensiona o espaço da tela, criando uma relação da cor com o espaço- este se expande e contrai, criando uma relação ambígua entre a forma e o fundo'. As telas de Barsotti são 'atos de espacialização', conforme colocação de Ronaldo Brito. Na virada da década de 60, produziu uma série de telas em branco e preto ou preto e branco, que são jóias de síntese do tratamento das possibilidades gestálticas da figura/fundo, na qual a figura menor concentra maior energia, criando a ilusão de expansão e rotação com grande economia de elementos'.
Gabriela S. Wilder
EM busca da essência: elementos de redução na arte brasileira. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1987.

'As telas de Hércules Barsotti realizariam, a meu ver, o mesmo processo por um caminho inverso: partindo da intuição sensível da cor alcançam a compreensão lógico-estrutural. E isso pode-se verificar, a contracorrente, nas etapas de produção. Primeiro, o pintor como que se despe de matéria e fatura pictóricas e de empatias cromáticas. A cor é tomada como ato puro de espacialização. E o a priori do formato, a opção de atacar deliberadamente triângulos, hexágonos, etc. , assinala o domínio do raciocínio estrutural sobre quaisquer mimetismos. Isto posto, o pintor faz retornar a natureza já como um dos momentos do processo cultural - a natureza como pintura, com a vibração física das cores. Cada tela exala assim um tônus afetivo, certa disposição do espírito para articular e viver um mundo. A figura geométrica vai reaparecer, portanto, qualificada pela cor - não há finalmente triângulos ou quadrados puros e ideais'.
Ronaldo Brito
AVENTURAS da ordem: Hércules Barsotti e Willys de Castro. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, 1988.

'O observador - bem ou mal-acostumado com o modo de ver uma obra de arte tradicional, após passar pela indefectível associação figurativa que os planos coloridos ou a forma externa de uma obra de Barsotti possam induzi-lo - começa a perceber, por meio do caráter de obra inteira, um fluxo conciso de informações de natureza puramente visual. Como a nossa interpretação dos sinais do perceptível se dá dentro de nós, em primeiro lugar, é bem possível que nesse ponto - com um pouco de esforço e humildade - passemos a indagar mais do objeto percebido do que de nossa memória, ou melhor, de nosso arquivo de modelos e vivências confrontadores. Daí, a um passo, plena de significações imprevistas, sua obra deixa transparecer o que cada um dela deve depreender'.
Willys de Castro
BARSOTTI, Hércules. Vermelho. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, 1998.

'Fascinado pelas superfícies translúcidas, magras e homogêneas que a acrílica permitia executar na tela, Barsotti nunca mais a abandonaria, conquistando com ela uma paleta de enorme riqueza cromática. Suas telas chegaram a articular simultaneamente até uma dezena de faixas de tons. Aos poucos, porém, e mais acentuadamente nestes últimos anos, o artista reduziu os campos de cor utilizados em cada composição. Agora ele os faz com dois ou no máximo três tons, um deles quase sempre ocupando agudíssimas áreas que, além da tensão cromática, promovem um deslocamento virtual dos palnos, instalando uma hipótese de volume. Cada trabalho, vale lembrar, é precedido de projeto traçado com exatidão sobre papel milimetrado. Só depois dos problemas esstarem perfeitamente resolvidos nessa instância é que Barsotti parte para a execução. Ou a delega, sem temores. Afinal, 'a execução nunca incorpora surpresas', sustenta ele. 'Meu pensamento é arquitetônico, o projeto já é a coisa pronta'. A escolha das cores, no entanto, não obedece a esse raciocínio cartesiano. É pessoal e intransferível, construída de modo retiniano, durante a mistura dos pigmentos. Operação semelhante acontece quando a decisão é quanto à área que aquela tonalidade irá ocupar na tela. 'Quando encosto uma cor na outra é que percebo a relação entre elas', conta. 'Nesse momento, é meu olho e não minha cabeça que decide' '.
Angélica de Moraes
MORAES, Angélica. Pele de Areia. In: BARSOTTI, Hércules. São Paulo, Galeria Sylvio Nery, 2002.

'O sentido de rotação das figuras, a partir do ponto central seria outro modo peculiar de Barsotti experimentar dimensões do espaço e do tempo. Ele gira em poucos graus figuras quadradas inscritas no interior do plano pintado- roda 45 graus o suporte do quadro sobre a parede. Na nova posição, o quadrado colocado a partir de um vértice flutua como um losango regular, enquanto as diagonais do quadrado, agora postas em sentido horizontal e vertical, passam a garantir a estabilidade visual do objeto-pintura. Os quadrados expandidos pela diagonal serão definitivamente adotados pelo artista para o desenvolvimento da experiência da cor. Da ordem geométrica, Barsotti atinge a vida da imagem. A estrutura interna da sua obra está fundada na experiência geométrica, mas a certeza sensível advém da prática experimental. A geometria é um instrumento para inventar e experimentar o espaço. Por isso, nunca é demasiado lembrar que os gregos empregaram diretamente a linguagem da proporção, lá onde hoje nos servimos do formalismo calculatório. Pode-se compreender adequadamente a geometria como um modo de apresentar um problema, como aparência sensível de uma idéia que não se expressa por outro código. Ela constitui um dos notáveis capítulos da matemática irracional, o que pode ajudar a compreender que os procedimentos visuais razoáveis e sensíveis não podem ser considerados 'racionalistas' '.
Ana Maria de Moraes Belluzzo
BELUZZO, Ana Maria de Moraes. Não-Cor Cor. In: BARSOTTI, Hércules. Não-cor cor. São Paulo: Museu de Arte Moderna, 2004.

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