Louise Weiss

Louise Weiss

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A0153

Luise Weiss (São Paulo SP 1953). Gravadora, pintora, fotógrafa, professora. Gradua-se em artes plásticas, em 1977, pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP, onde é aluna de Evandro Carlos Jardim (1935), Regina Silveira (1939) eCarmela Gross (1946). Paralelamente à graduação, realiza livros com suas xilogravuras. Entre 1977 e 1987 é professora do laboratório de desenho infantil e juvenil da Pinacoteca do Estado de São Paulo - Pesp. Inicia sua carreira como professora universitária em 1984, lecionando na Faculdade de Artes Alcântara Machado - Faam, e desde 1985 dá aulas na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 1990 é agraciada com a Bolsa Vitae pelo projeto Fragmentos. Mestre, em 1992, pela ECA/USP, conclui o doutoramento em 1998, na mesma universidade, com a tese Retratos Familiares: in Memorian. Em 2001 vai para a Áustria, terra de seus antepassados, e munida de fotografias antigas, refotografa alguns dos locais onde ele viveram. Realiza pinturas com base nessas fotografias, expostas em 2004. Em 2002 retoma o contato com a tia-avó Clara Weiss, que lhe fornece mais fotografias de família para a execução de suas obras. Começa, em 2003, a preparação do projeto de sua livre-docência na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, onde desde 1997 é professora de gravura e desenho.

Comentário Crítico

Luise Weiss começa a expor em 1974, quando participa do circuito de exposições coletivas na cidade de São Paulo com xilogravuras apresentadas como livros. Cedo revela seu interesse por constituir um repertório de imagens a partir da investigação da própria identidade, tomando retratos de seus antepassados como base para realizar suas obras. O retrato tem um papel decisivo na relação entre a pintura, a gravura e a fotografia no trabalho da artista. Os antigos retratos fotográficos de seus familiares - frontais ou de perfil, retratos de corpo inteiro (até mesmo de casamento), mães com filhos e retratos de crianças - dão lugar a retratos pintados sem a preocupação da representação fiel: Weiss observa as fotografias antes e durante a realização das pinturas em vez de projetá-las na tela.
Até 1997, pinta em preto-e-branco passando a usar cores em sua produção de 1998, quando trabalha sobre retalhos de tecidos coloridos colocados na superfície do duratex. Na pintura, encobre o rosto ou partes do corpo dos retratados e faz o mesmo em litografiase xilogravuras. A fotografia não é para Weiss somente um processo de intermediação entre a pintura e a gravura. As fotografias propriamente ditas aparecem em objetos criados pela artista - como os copos com água ou mel nos quais mergulha imagens fotográficas de seus ancestrais - ou em álbuns fotográficos.

Nascimento
1953 - São Paulo SP - 18 de outubro
Cronologia
Gravadora, pintora, fotógrafa, professora

1973/1977 - Forma-se em artes plásticas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP
1974 - Estuda litografia com Evandro Carlos Jardim (1935) na Fundação Armando Álvares Penteado - Faap
1976/1978 - Estuda aquarela e desenho sob a orientação de Rubens Matuck (1952)
1978 - Estuda construção de objetos com Marcello Nitsche (1942) na Pinacoteca do Estado de São Paulo - Pesp
1980 - Leciona iniciação artística para crianças e adolescentes no Setor Educativo e xilogravura na Pinacoteca do Estado
1980 - Recebe Menção especial pelos críticos da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA para Faz de Conta, o melhor jornal infantil do ano
1986/1992 - Faz mestrado na ECA/USP, sob orientação de Julio Plaza (1938 - 2003). Tema da pesquisa: Metaobjetos Memorial Descritivo
1988 - Edita o livro Brinquedos e Engenhocas, pela Editora Scipione
1989 - Recebe a Bolsa Vitae de Artes, na área de artes visuais, com o projeto Fragmentos - objetos e pinturas
1990 - Ilustra o livro De Bichos, Feitiços e Sonhos de Léa Langone, pela Editora Paulinas
1992 - Elabora texto para o livro Brinquedoteca: O Direito de Brincar, O Espaço do Brinquedo de Sucata na Brinquedoteca
1993 - Ilustra o livro infantil ABC do Zôo de Pedro Maia, pela Cia. das Letrinhas
1993 - Recebe o 3º Prêmio do Concurso de Criação e Design de Brinquedos. Brinquedos: do Projeto ao Protótipo, organizado pela Abrinq em cooperação com a USP
1995 - Elabora o projeto gráfico do livro Goeldi - uma história de horizonte, pela Editora Paulinas
1995/1998 - Faz doutorado na ECA/USP, na área de Poéticas Visuais, sob orientação de Evandro Carlos Jardim. Tema da pesquisa: Retratos Familiares - Uma Recuperação da Memória
1996 - Recebe o Prêmio Jabuti: livro Goeldi - uma linha de horizonte, Ed. Paulinas - MAC/USP
1997 - Elabora o projeto gráfico e ilustra o livro Se o Jardim Voasse Não Seria Jardim, pela Edições Serviço Educativo do Masp
1997 - Recebe o Prêmio Estímulo de pesquisa para o projeto de Exposição do Paço das Artes, São Paulo

Críticas

'O profundo lirismo de seus objetos nasce de estruturas inventivas, mágicas, oníricas, mas não se pode deixar de captar certa melancolia, solidão, quietude e amplos silêncios, que queriam ser palavras. Esta solenidade fica rompida pela adivinhação a reinstalar o clima zombeteiro e brincalhão. O ritmo é o das cirandas: cadenciado, ágil e coletivo, tangenciando questões contempladas nas brincadeiras de roda, entre as quais destacam-se o convite à participação de todos, o enredo (por vezes dramático) e o desfecho - a chave para um reinício da dança. Esse fio invisível, a levar a um novo começo, comparece igualmente nas obras de Luise, unindo cada peça, desenho, montagem, monotipia, carimbo. Segundo a artista, o lado irônico seria a ligação entre eles, pois cada objeto e criação ampliam a reflexão sobre o mundo circundante. A atualidade da produção da artista encontra-se nas raízes conceituais que incluem o simbólico e expressivo, o individualizado, contrapostos a uma ordem material, formal e universal. Não alça sua vista ao novo, original, inédito e capaz de causar perplexidade- não afasta a comunhão com os que não tenham condições de uma contemplação estética ou instrumental erudito para decodificar as unidades sensíveis de seu idioma'.
Ciça França Lourenço
LUISE Weiss: objetos e desenhos. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1986.

'Luise, apesar de gravadora exímia, sempre pareceu inadaptada às regras da gravura, talvez por não desejar condicionar sua sensibilidade particular a um meio com restrições bastante delimitadas. Parecia que a gravura restringia sua ânsia de tornar perfeitamente visível o seu conhecimento do mundo. Ainda como gravadora, possuía uma produção de caráter analógico, uma figuração expressiva, que parecia a muito custo manter-se constrangida à superfície do papel. Superfície esta - é fundamental salientar, porque aí estaria talvez a origem do caráter intimista de seus objetos primeiros - de dimensões reduzidas, uma vez a artista filiava-se consciente ou inconscientemente a uma certa tradição da gravura brasileira que percebe aquele meio como expressão recolhida, realizada para uma fruição quase individualizada (por mais paradoxal que seja), que dispensaria inclusive a moldura, devendo a gravura ser examinada nas mãos do observador (de preferência um expert), como nos gabinetes de estampas e desenhos. Nesse sentido, se se entende a gravura para Luise como uma experiência constrangedora das potencialidades de expansão de sua sensibilidade, pode-se concluir que a produção de objetos surgiu como uma forma de escapar das restrições da gravura e de sua tradição no país. Uma conclusão plausível. Tanto é verdade que seus primeiros objetos, mesmo mantendo uma relação analógica com o mundo, já possuíam em germe a capacidade de virem a se constituir o meio mais adequado para a artista se posicionar perante o real, não mais representando-o apenas (como na sua experiência com a gravura), reiterando a existência de coisas já existentes, mas ampliando esse mesmo real, apresentando a ele novas formas, outras coisas'.
Tadeu Chiarelli
WEISS, LUISE. Luise Weiss: fragmentos. São Paulo: MASP, 1991.

'Luise Weiss, pesquisando a história da família, remonta, no tempo, aos nomes fundadores: um deles é o do médico que salva o grande Tausk de pelotão de fuzilamento, o outro é o do filho médico do médico, que tem na parede do consultório o retrato do psicanalista- pai de Luise, o segundo médico produz falas enquanto expõe retratos. Retrato é o que ela por sua vez faz, subindo a linhagem, tanto da pintura, desenho, objeto (monóculos, livros, visores, fotos, montagens) quanto em gravura. Como na maior parte das técnicas, na gravura prevalece a oposição do branco e do preto que definem o antigo retrato. Assim, conservado, o retrato de Luise, à medida que o branco cresce a expensas do preto, constrói a história com a destruição da madeira- na impressão xilográfica, Luise seleciona os momentos da destruição, em que a construção se inflete e alguém, novo, se mostra. O corte da madeira torna-se, assim, o próprio corte do tempo, embora Luise não siga ordem linear por privilegiar, na exposição das gravuras, a ordem combinatória em porta-retratos que, articulados, pedem intervenção do espectador. Retirada a madeira, cresce a luz- mas, diferentemente de Evandro Jardim, que pensa o tempo e o intemporal, Luise Weiss exibe o devir nas metamorfoses do retratado. Nestas, exemplifica-se o tempo da vida, o da vida da família e de seus mortos: em tal tempo, a repetição alegoriza o corte em que se sobe e se desce pela linhagem, dupla mão que a história requer para não se perder, esquecida, e para, exorcizada, entrar na ordem que inclui os mortos no mundo dos vivos'.
Leon Kossovitch e Mayra Laudanna
KOSSOVITCH, Leon e LAUDANNA, Mayra. Das Paixões. In: GRAVURA: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 2000, p. 10.