Ubirajara Ribeiro

Ubirajara Ribeiro

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A0405

Ubirajara Motta Lima Ribeiro (São Paulo SP 1930 - idem 2002). Aquarelista, gravador, pintor, professor, arquiteto. Em 1948 cursa pintura com Vicente Mecozzi (1909 - 1964) e, entre 1952 e 1954 estuda com Pedro Corona, João Rossi (1923 - 2000) e Waldemar da Costa (1904 - 1982). Forma-se em arquitetura pela Universidade Mackenzie, em 1954. Em 1956 vai para Salvador e freqüenta curso livre de gravura com Mario Cravo Júnior (1923), na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia. Obtém bolsa de estudo do governo francês em 1960, e faz estágio no escritório dos arquitetos Guillaume Gillet (1912 - 1987) e Paul Chemetov (1928) em Paris. Na década de 1960 integra o grupo dos cinco arquitetos-pintores com Maurício Nogueira Lima (1930 - 1999), Flávio Império (1935 - 1985), Sérgio Ferro (1938) e Samuel Szpigel (1936). Inicia carreira como professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie e na Fundação Armando Álvares Penteado - Faap. Até meados da década de 1970 desenvolve intensa atividade na área de arquitetura, como os projetos da catedral presbiteriana em Brasília e da Refinaria de Mataripe, em Salvador- e o plano-diretor de Campos do Jordão, São Paulo, entre outros. Elabora, com Walter Maffei, o projeto de montagem da 11ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1971. No ano seguinte tem aulas de gravura em metal com Evandro Carlos Jardim (1935) na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. Em 1976 deixa definitivamente a arquitetura para se dedicar às artes plásticas. Organiza, em 1980, a exposição Papéis e Cia., no Paço das Artes, da qual resulta a Cooperativa de Artistas Plásticos de São Paulo, extinta no mesmo ano.

Comentário Crítico
A obra de Ubirajara Ribeiro, no início da década de 1960, apresenta afinidades com a arte pop, pois explora sugestões eróticas relacionadas à propaganda. O artista passa a usar como 'molduras', em suas obras, pedaços de móveis e outros materiais precários, como ocorre em A Luta, 1965, na qual alia materiais antigos a uma refinada técnica de pintura. É freqüente também em sua obra a inserção de letras ou palavras.
Sua produção é organizada em séries de trabalhos ligados pela preocupação temática. Em obras expostas em 1987, trabalha a partir de cartões postais de 1903-1904, sobre os quais realiza interferências ou cria colagens. Suas obras apresentam grande leveza e também um caráter lúdico.
Como nota a crítica Angélica de Morais, o artista, um dos principais aquarelistas do país, desloca o eixo principal de suas indagações da questão pictórica para o universo dodesenho. Apesar da utilização dos materiais tradicionais da aquarela, a principal preocupação não é a mancha de cor, mas o traço, o gesto do pincel.
O artista transita com muita liberdade entre figuração e abstração, realizando trabalhos com uma grande variedade de técnicas: desenho, aquarela, pintura, gravura e objeto.

Nascimento/Morte
1930 - São Paulo SP - 2 de outubro
2002 - São Paulo SP - 9 de novembro

Cronologia
Arquiteto, pintor, aquarelista, gravador, professor, fotógrafo, artista gráfico

s.d. - Membro da Association Internationale des Arts Plastiques
s.d. - É consultor plástico de engenharia estrutural, sendo responsável pela concepção formal de grandes obras como Elevado da Encosta do Joá, no Rio de Janeiro- e Cebolão, Ponte Ferroviária da Fepasa, Ponte do Jaguaré e Avenida e Complexo Viário do Aricanduva, em São Paulo
1948 - É aluno de Vicente Mecozzi (1909 - 1964) em São Paulo
1949/1954 - Forma-se pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, onde frequenta os cursos de pintura de Pedro Corona
1953 - Estuda com João Rossi (1923 - 2000) em São Paulo
1954 - Estuda com Waldemar da Costa (1904 - 1982) no Museu de Arte de São Paulo - Masp
1955/1956 - Recebe, como arquiteto, Prêmio Assembléia Legislativa de São Paulo (1955) e medalha de prata (1956)
1956 - Muda-se para Salvador, onde frequenta o curso livre de gravura, ministrado por Mário Cravo Júnior (1923), na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia
1959 - Recebe o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro pela Maison de France
1960 - Obtém bolsa de estudo do governo francês na área de pré-fabricação, permanecendo por mais seis meses na França. Realiza estágio em Paris, no escritório de arquitetos Guillaume Gillet e Paul Chemetov
1960/1965 - Vence vários concursos nacionais de projetos coordenados pelo IAB
1960/ca.1969 - Em São Paulo, participa de movimentos de vanguarda influenciados pela pop art norte-americana e das novas figurações européias
1960/ca.1970 - Desenvolve projetos arquitetônicos como a Catedral Presbiteriana, Brasília- Associação Atlética do Banco do Brasil, Porto Alegre- Teatro Castro Alves e Refinaria de Mataripe, Salvador- e plano-diretor de Campos do Jordão, entre outros
1961/1969 - Leciona desenho e composição na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, em São Paulo
1962/1995 - A partir desta data é professor da Faculdade de Artes Plásticas da Faap, Faculdade de Arquitetura da Escola de Belas Artes e ECA/USP
1965 - Participa do grupo dos cinco arquitetos-pintores, com Maurício Nogueira Lima (1930 - 1999), Flávio Império (1935 - 1985), Sérgio Ferro (1938) e Samuel Szpigel (1936), em São Paulo
1967 - Recebe o Prêmio 'O Dirigente Construtor', setor de consultoria plástica, planejamento físico e paisagismo pela obra do Elevado do Joá
1971 - Elabora, com Walter Maffei, o projeto de montagem da 11ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1972 - Cursa gravura em metal com Evandro Carlos Jardim (1935) na Universidade de São Paulo
1976 - Encerra suas atividades como arquiteto, dedicando-se exclusivamente ao ensino, à pesquisa e à produção artística
1977 - Recebe o prêmio de melhor gravador da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA, por exposição individual na Galeria Graphus
1978 - Organiza a exposição Papéis e Cia., no Paço das Artes, da qual resulta a Cooperativa de Artistas Plásticos de São Paulo, extinta em 1980
1980 - Recebe Prêmio APCA de melhor pesquisa, na Galeria Sesc Paulista
1991 - Recebe Prêmio de Melhor Evento do Ano por participação em mostra Homenagem à Avenida Paulista, realizada na Galeria Sesc Paulista
1993 - Recebe o primeiro prêmio no 1º Salão Paulista de Aquarela da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo

Críticas
'(...) Dos três artistas brasileiros que introduziram a pop art no país, Cordeiro, Wesley e Ubirajara, achamos o terceiro o mais feliz de todos. Se Wesley pegou o espírito irônico, irreverente e agressivo da arte pop, Ubirajara pegou o seu espírito brincalhão, leve, dançante e musical. Pop art é contra a arte séria e a noção séria e severa da composição. Em pop art predomina, especialmente no caso de Ubirajara, um espírito de leveza que joga e brinca com elementos compositivos. Aliás, com muita maestria e sensibilidade. O observador é quase convidado - como também no caso do neoconcretismo - a participar ativamente no jogo compositivo. Acabou-se o culto da composição severa, bem estruturada, fechada. O que predomina em pop art são jogos compositivos, abertos para a colaboração brincalhona de cada um. Ubirajara mostrou-se um mestre de leveza, inventividade, bom gosto e poesia'.
Théon Spanudis
[Texto escrito originalmente em 1964]
SPANUDIS, Théon. O pop-art de Ubirajara. Habitat, nº 79, 1964, apud PECCININI, Daisy. (Coord.). O objeto na arte: Brasil anos 60. São Paulo : FAAP, 1978, p.206-207.

'O território por onde avança a arte de Ubirajara é um tecido sutil de memórias e gestos, articulações que flutuam entre o consciente e o inconsciente, a meio caminho entre a definição da forma e sua dispersão no espaço. Seu alvo é o momento que não se repete, o fragmento de tempo aprisionado pelo gesto. (...). Um dos maiores mestres aquarelistas do país, ele desloca o eixo principal de suas indagações da questão pictórica para o universo do desenho. Apesar de continuar utilizando os materiais tradicionais da aquarela, o foco agora não é a mancha de cor, mas o gesto do pincel, o traço. Sem ser gráfico, o resultado se beneficia da intimidade e da experiência de Ubirajara em fazer construções a partir da linha (...)'
Angélica de Moraes
[Texto do catálogo da exposição individual realizada na Galeria Paralelo 23, em 1992]
LOUZADA, Maria Alice do Amaral, LOUZADA, Júlio. Artes plásticas Brasil 1996 : seu mercado, seus leilões. Fotografia de Sérgio Guerini. São Paulo : Júlio Louzada, 1996. p.702-703.

'Pertence a uma geração que, nos anos 60, sob a influência da pop art norte-americana e das novas figurações européias, reintroduziu a figura também na arte brasileira, encerrando o fastígio dos dois abstracionismos, o construtivo e o informal. Entre outros, destacaram-se, no Rio, Antônio Dias, Rubens Gerchman, Roberto Magalhães, Carlos Vergara, Wanda Pimentel, Maria do Carmo Secco. Em São Paulo, Wesley Duke Lee (a rigor, um pouco mais velho que Ubirajara), Marcelo Nitsche, Cláudio Tozzi e José Roberto Aguilar (mais jovens que ele). Todos foram ativíssimos nos anos 70 e 80 e estão hoje, por assim dizer, consagrados.
Quem acompanhou desde cedo e de perto esses movimentos foi Walter Zanini, então diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP e organizador de exposições hoje históricas, como 'Jovem Gravura', 'Jovem Desenho' e 'Jovem Arte Nacional'. Com seu conhecimento de causa, escreve Zanini em sua alentada História Geral da Arte no Brasilque Ubirajara vem desenvolvendo 'uma produção tranqüila e refinada, de predominância gráfica, que se alongou no tempo através de conjuntos de trabalhos regidos pela preocupação temática'. Mesmo quando pinta ou incursiona em outras técnicas, conserva-se sobretudo um desenhista, pela sutileza, pelo espírtito intimista, pela ligação com um universo muito pessoal de fantasias tratadas sotto voce, quase que em solilóquio, falando mais para si mesmo, sem ceder a efeitos, sem querer impressionar.
É verdade que, sob certo ângulo, a obra de Ubirajara Ribeiro impressiona sempre: pelo brilho, pelo virtuosismo. Dotado de talento e técnica excepcionais, realiza inevitavelmente trabalhos impecáveis e sedutores, muitas vezes revestidos de uma leve aura de mistério. Mas não se trata, em seu caso, de recursos exteriores nem truques do ofício, reunidos postiçamente com a função de agradar. São a maneira natural pela qual a obra vem à tona, o ponto de chegada de um processo límpido, fluente e (pelo menos aparentemente) sereno, que deságua numa beleza precisa.
(...)
Ubirajara faz desenho, aquarela, gravura, pintura, objeto, sempre com o mesmo amplo domínio das técnicas, e as investiga em suas especificidades, e as utiliza como suportes para distintas investigações no próprio processo expressivo. Transita com absoluta liberdade entre a figuração e a abstração, e é impressionante como domina ambas as linguagens. Ora se esmera em controlar, nesta ou naquela série, cada passo e cada resultado, ora invoca a colaboração do imprevisto e do acaso, numa outra. Cada proposta gera suas próprias soluções.
(...)
Ubirajara Ribeiro é seguramente um inventor, não só de formas mas também de maneiras de obtê-las. Cria dentro da criação. Circunscrito a limites aparentemente até convencionais - o intimismo, o solilóquio, os pequenos formatos, a aquarela, o gesto delicado - preserva na arte seu coeficiente básico de aventura experimental'.
Olívio Tavares de Araújo
RIBEIRO, Ubirajara. Segmentos. São Paulo: Múltipla de Arte, 2001.